quarta-feira, 30 de Julho de 2014

esta lua não é para tímidos

Aqui no Ribatejo profundo, onde não chegam os postes da PT, chega-nos todos os meses a lua cheia. Felizmente este satélite, o único satélite natural da Terra, ainda não depende da lógica economicista de nenhuma multinacional. E não é preciso fazer nenhum contrato de fidelização para a ver agigantar-se de tal forma que ilumina tudo. Cada árvore, cada arbusto, cada flor mais insignificante, tem a sua sombra, como numa noite americana*. Os morcegos fazem-nos tangentes, talvez ofuscados com tanta luz. Ouve-se o piar dos mochos, o zunir das melgas o latir dos cães e o coaxar de rãs no charco que ainda sobra do ribeiro. Mas não se ouve o mais belo canto nocturno, o do rouxinol. Isto deixa-me intrigada. Uma ave que canta e encanta noutras noites, fecha literalmente o bico, nas noites de lua cheia. Fui investigar. Sendo uma ave tímida, que se esconde no meio da vegetação e que raramente se deixa ver, os rouxinóis não conseguem passar despercebidos nas noites de luar e por isso calam-se. Os machos cantam regularmente à noite para atrair parceira. Mas não nas noites de lua cheia. Esta lua não é para tímidos. A corte fica para outras noites menos reveladoras. Que fique aqui bem claro, para os ornitólogos que me possam estar a ler, isto não tem qualquer fundamento científico, baseia-se apenas na observação empírica de alguém que gosta de arregalar a vista e tentar perceber o funcionamento do universo que a rodeia, e por universo entenda-se o seu quintalinho.

*A noite americana refere-se a uma técnica especial de fotografia, muitas vezes utilizada no cinema, em que as cenas filmadas durante o dia, sob a luz do sol, parecem passar-se durante a noite, sob a luz da lua.




segunda-feira, 28 de Julho de 2014

postes e posts

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A poucos dias de ser a blogger convidada do Lifecooler, e partindo do princípio que algumas pessoas vão entrar no quimaterapia pela primeira vez, convém esclarecer algumas questões. A primeira é talvez o nome do blogue, que nada tem a ver com terapias utilizadas no tratamento de doenças cancerígenas. Quimaterapia surgiu como um trocadilho com os nomes Quim, diminutivo de Joaquim, meu marido, e Marta, eu. O blogue e o que nele publicava em 2007, quando o iniciei, eram trabalhos que nos serviam de terapia. Uma forma de fugir à rotina do dia-a-dia. A segunda questão são os parcos posts. Um recém chegado pode achar o blogue escasso em conteúdos. Uma blogger que se preze não tem meses com apenas dois posts. O motivo não é preguiça, nem falta de assunto. É mesmo falta de rede. 
Vou-vos contar um segredo. Não digam a ninguém, até porque ninguém iria acreditar e poderiam passar por tolos. Para falar ao telemóvel tenho que sair de casa. É verdade que é mais complicado no Inverno, com chuva e frio, mas no Verão também não é fácil, andar de telefone na mão à procura de rede, mais a Sul, mais a Norte, conforme está o vento. Para ter internet, o filme torna-se ainda mais cómico, ou melhor, trágico-cómico. Tenho um cabo USB de três metros em que uma extremidade entra no portátil (um eufemismo, uma vez que não o posso tirar do mesmo lugar) e na outra coloco a pen, bem protegida do sol e da chuva com um saco de plástico, e atiro-o, literalmente para o telhado. Começa a pesca. Se o mar estiver de feição consigo uma pescaria de três tracinhos, se não recolho ao cais de convés vazio. É o que acontece com maior frequência, daí os poucos posts
Agora estão vocês a pensar "mas porque raio não instala ela um telefone fixo com internet?" A pergunta é simples, mas a resposta é muito complicada. O pedido foi feito à PT há quatro anos, e já tem mais episódios que uma novela da TVI. Ao que parece são necessários seis postes para trazer a rede fixa até aqui. Em tempo de vacas gordas a PT não olhava a gastos e instalava um telefone fixo em qualquer ermo. Mas esse tempo já lá vai. E, agora, a empresa que apregoa que a instalação é gratuita para o cliente, diz-nos que não pode satisfazer o pedido porque não há infra-estrutura. "Quer desistir do pedido?" pergunta a menina do outro lado do telefone. E eu, lá no alto do monte, respondo "NÃO". Afinal a esperança é a última a morrer.


segunda-feira, 21 de Julho de 2014

matéria-prima

Ai a alfazema. Perfumada, bonita, com propriedades calmantes e, fiquei a saber recentemente, através da crónica semanal do Miguel Esteves Cardoso no Público, também repelente de moscas e traças. Por cá floresce no jardim e é matéria-prima para a maioria dos meus trabalhos e para bons chás.





domingo, 6 de Julho de 2014

opostos bem dispostos

“Ele diz coisas tão magras tão magras, que ela quase morre de fome ao ouvi-lo. Ela espera herdar uma fortuna e peras, ele encolhe os ombros e come maçãs. (…) Ela encara sempre as coisas de frente, ele vê sempre as coisas pelo outro lado. (…) Enquanto ele procura não ser como ela, ela encontra forma de evitar ser como ele.” Eugénio Roda in Contra Dizeres. 






quinta-feira, 26 de Junho de 2014

felicidade é ter três tracinhos de rede

Já com saudades do Felicidário, que terminou em 2013, estou a criar o meu próprio calendário da felicidade. O Felicidário original era um calendário ilustrado com ideias felizes para maiores de 65 anos. O meu vai ser um calendário com ideias felizes para quem vive a mais de 65 quilómetros de Lisboa. Talvez não seja correcto chamar-lhe Felicidário, uma vez que a sua frequência não vai ser diária, mas gosto do nome, faz-me feliz! Se houver por ai alguém que me queira acompanhar nesta aventura, com uma ilustração de vez em quando, será muito bem-vindo.